Em Salvador, famílias, amigos e defensoras de direitos humanos se encontram para lembrar Bernadete Pacífico, uma importante liderança quilombola assassinada. A homenagem acontece nesta segunda-feira (17), com uma missa no Santuário do Senhor do Bonfim, iniciando às 9h.
Bernadete foi cruelmente assassinada em sua casa na comunidade de Pitanga dos Palmares, Simões Filho (BA), onde foi alvejada por 25 tiros. Este evento trágico desencadeou um intenso clamor por justiça e um forte desejo de preservar o seu legado, que ainda ressoa em sua comunidade.
Memórias e Desafios
Wellington Pacífico, neto de Bernadete, estava presente no dia de sua morte e recorda o luto pela avó como uma adição à dor que já sentia pela perda de seu pai, Flávio Pacífico, conhecido como Binho, assassinado em 2017. Em suas palavras, “são feridas que não foram reparadas”. Atualmente, Wellington participa do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e considera que a busca por justiça é uma maneira de honrar os legados de sua família.
“Apesar das injustiças, nos esforçamos para preservar as boas memórias e cultivar novas expectativas”, enfatiza Wellington.
Com o objetivo de buscar justiça, Wellington optou por estudar Direito, visando apoiar sua comunidade e as questões que envolvem as lideranças quilombolas na Bahia. Ele observa que dois dos réus do crime contra sua avó já foram condenados, enquanto outros três ainda aguardam julgamento, previsto para outubro.
O Legado da Ativista
A família de Bernadete está planejando um festival de cultura e arte quilombola para manter seu legado vivo. Jurandir Pacífico, filho de Bernadete, ressalta a importância de incluir a comunidade e buscar parcerias para dar continuidade a iniciativas como cursos de artesanato e cozinha solidária.
Selma Dealdina, ativista da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), também participará da missa. Ela destaca a urgência da proteção aos defensores de direitos humanos, especialmente em situações de conflitos territoriais, que a morte de Bernadete evidenciou.
“Esperamos mais do Estado brasileiro na proteção das lideranças quilombolas que lutam por seus direitos e territórios”, afirma Selma.
A Conaq, em uma nota oficial, pediu a responsabilização dos que participaram do assassinato de Bernadete e chamou a atenção para a violência contra líderes quilombolas, que se insere numa questão mais ampla de conflitos territoriais. A entidade ressaltou a força de Bernadete, que dedicou sua vida ao bem-estar de seu povo.
Desafios em um Contexto de Vulnerabilidade
A historiadora Valdecir Nascimento observa que as defensoras de direitos humanos negras enfrentam um cenário complexo, onde racismo e violência se entrelaçam. De acordo com dados da Conaq, após o assassinato de Bernadete, outras 22 mulheres nessa posição foram mortas entre 2016 e 2024.
Atualmente, apenas 12,6% da população quilombola no Brasil possui terras demarcadas. Selma Dealdina ressalta que “é fundamental que possamos nos sentir seguros em nossos territórios”. Em resposta a essa realidade, a Conaq está propondo um plano emergencial com foco na proteção das mulheres quilombolas, buscando garantir que todas possam reivindicar seus direitos sem receios.
Com informações da Agência Brasil (EBC), sob licença CC BY 3.0 BR. Texto editado.
