Na quarta-feira (26), em Brasília, ocorreu uma mobilização significativa onde lideranças e ativistas negras lançaram o Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026. Organizado pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), o evento convocou a ação, inspirado na canção “Cangoma me Chamou”, de Clementina de Jesus.
Propostas para um novo sistema político
Dentre as propostas do manifesto, destaca-se a criação de um sistema que priorize valores como equidade, solidariedade e justiça, buscando assegurar uma vida digna a todos. O documento enfatiza que as mulheres negras devem assumir posições centrais no processo político, atuando não apenas como beneficiárias de políticas, mas também como cidadãs, eleitoras e candidatas.
“Nossa presença nas casas legislativas e no executivo é prioridade absoluta”, ressalta o manifesto.
Ampliação da voz das mulheres negras
As mulheres negras estão atentas à sua importância nas eleições deste ano e elaboraram diretrizes para amplificar suas vozes e reivindicações. Isabel Faroni, diretora do Instituto Akanni, comentou sobre a necessidade de ser ouvida: “O manifesto é uma proposta de sociedade maravilhosa, porque a gente gosta da partilha justa e do cuidado mútuo.”
Igualdade e reparação histórica
Para Jolúzia Batista, coordenadora nacional da AMNB, o manifesto exige igualdade e ações reparatórias diante de séculos de injustiças sociais. A iniciativa visa não apenas apresentar propostas concretas, mas também assegurar a inclusão das mulheres negras na agenda política.
“Essas diretrizes servirão para cobrar dos candidatos e governantes a efetivação de uma representação política real”, defendeu Jolúzia.
Desafios enfrentados nas eleições
O manifesto critica a exclusão das mulheres nos partidos políticos e a falta de recursos direcionados a candidaturas femininas. Durante o evento, foi reforçada a campanha #EuVotoEmNegra, que visa estimular a representatividade das mulheres negras nas urnas.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 1.234 das mais de 20 mil candidaturas são de mulheres negras (6%), enquanto 2.485 correspondem a mulheres pardas (12,2%). Este cenário reflete a desigualdade em relação à população, já que, conforme o IBGE, 28,2% da população é composta por mulheres negras, totalizando aproximadamente 58 milhões.
Um chamado à transformação social
Nádia Estela Ferreira Mateus, promotora de Justiça, destacou a relevância da participação das mulheres negras no sistema de justiça, afirmando: “Falar sobre reparação e justiça racial é essencial para fundamentarmos a democracia”.
Cenário de guerra híbrida
As líderes também discutiram as ações de desmantelamento de direitos sociais por grupos adversários. Janira Sodré, da AMNB, alertou sobre o “tecno autoritarismo”, onde a internet é usada para manipular informações e deslegitimar direitos já conquistados.
Ela ainda enfatizou a crescente violência contra comunidades negras e a urgência de criar uma base social solidária. “O Estado deve garantir cidadania e serviços essenciais para nossa comunidade”, finalizou.
Pacto intergeracional para a construção do futuro
No evento, várias gerações de mulheres negras se reuniram, firmando um compromisso coletivo para ocupar espaços de decisão. Caiene Reinier Freitas, mestranda e ativista, sublinhou a importância dessa união e da luta pela representatividade nas políticas públicas em benefício de toda a população.
“Ocupar os espaços de decisão é essencial para materializar as diferentes vivências da mulher”, concluiu Caiene.
Com informações da Agência Brasil (EBC), sob licença CC BY 3.0 BR. Texto editado.
