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Saúde mental após perda gestacional precisa de apoio profissional

Especialistas afirmam que a saúde mental de mulheres que vivenciam a perda gestacional necessita de atenção especial. Um estudo da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destaca que o luto decorrente dessa experiência é frequentemente minimizado, deixando de receber o suporte necessário.

Kalyane Ribeiro, 34 anos, narra sua experiência após a perda de uma gestação precoce aos 32 anos, após um ano e meio tentando engravidar. Para Kalyane, a dor enfrentada vai muito além de um mero evento; é um processo solitário e incompreendido. “Quando você passa por isso, parece que abre uma porta para um lugar que poucos entendem”, revela ela.

Impacto emocional da perda gestacional

A perda gestacional pode gerar significativo sofrimento emocional, independentemente do tempo de gestação, como explica Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo. Sentimentos de tristeza e culpa, assim como sintomas físicos como insônia e irritabilidade, são comuns. “Tristeza intensa é uma reação natural e não deve ser considerada uma condição psiquiátrica sem o devido acompanhamento”, acrescenta.

O obstetra e professor da Universidade Federal de São Paulo, Eduardo Felix Martins Santana, aponta que entre 15% e 20% das gestações terminam em perda antes da 20ª semana. Ele enfatiza a relevância do apoio durante o luto. “É fundamental que a mulher receba suporte para enfrentar esses desafios”, afirma.

A psiquiatra Andréa Cristina Galastri destaca que as flutuações hormonais são determinantes para a saúde mental após a perda. “Durante e após a gravidez, o corpo experimenta mudanças significativas; a ausência abrupta dos hormônios pode gerar emoções intensas”, explica.

Reconhecendo a necessidade de apoio

Segundo Galastri, se tristeza e desespero persistirem por mais de 15 dias, buscar ajuda profissional é essencial. “Quando a dor atinge um ponto em que a mulher sente que não tem mais razão para viver, surge a necessidade de intervenção”, salienta.

Se os sintomas impactarem atividades cotidianas, como alimentação ou sono, isso pode indicar uma condição mais grave que demanda tratamento adequado. “O sofrimento é esperado, mas a paralisia total da vida não deve ser considerada normal”, conclui.

Responsabilidade dos profissionais de saúde

Os profissionais de saúde devem manter uma preocupação constante com o cuidado durante esse período delicado, conforme Santana. Criar um ambiente acolhedor e estar atento aos diferentes estágios do luto é importante. “Devemos ser proativos e oferecer o suporte necessário, sem aguardar que a paciente busque ajuda apenas em momentos críticos”, alerta.

Procurando apoio e compartilhando experiências

Kalyane, agora residente em Campinas, destaca que o apoio de outras mulheres foi vital em sua jornada de cura. Ao criar uma comunidade no TikTok, ela conecta mulheres com histórias similares, proporcionando um espaço seguro para que compartilhem sentimentos e experiências. “Não é fácil encontrar quem esteja disposto a ouvir”, observa.

Esses encontros resultaram na publicação do livro Ainda me Sinto Mãe, onde Kalyane compartilha suas experiências e das outras mulheres que também enfrentaram perdas gestacionais, ressaltando a importância do diálogo e do acolhimento.

Serviços de apoio psicológico disponíveis

O Ministério da Saúde orienta que pessoas que se sentem sobrecarregadas, incluindo pensamentos suicidas, busquem assistência em sua rede de apoio ou serviços de saúde.

Recursos disponíveis incluem:

  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde;
  • UPA 24H, SAMU 192 e Pronto Socorro;
  • Centro de Valorização da Vida – 188, disponível 24 horas.

O Centro de Valorização da Vida fornece apoio emocional e prevenção do suicídio com atendimento gratuito, voluntário e total sigilo.