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Quilombo urbano na zona sul do Rio ensina resistência

Na última semana, o Quilombo Urbano Ferreira Diniz, localizado na Glória, zona sul do Rio de Janeiro, recebeu um importante reconhecimento ao ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O tombamento inclui todo o terreno, que abriga tanto o quintal com diversas árvores frutíferas quanto os casarões, formando um espaço fundamental para convivência e cultura.

Um dos destaques da comunidade é a feijoada da Tia Cida, que é preparada por Maria Aparecida Ferreira e servida nas sextas-feiras. Este prato tradicional não só atrai os moradores locais, mas também visitantes que desejam experimentar a rica gastronomia do Quilombo. O ambiente onde a feijoada é feita valoriza a união e revive tradições familiares.

Raízes e Historias

A origem dessa comunidade remonta à década de 1950, quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de escravizados de Minas Gerais, se estabeleceu na área. Eles enfrentaram várias mudanças ao longo do tempo e, em 2023, foram reconhecidos oficialmente como quilombolas pela Fundação Cultural Palmares, num contexto em que já utilizavam o espaço para um restaurante, buscando visibilidade e sustento econômico.

Tia Cida, que sempre teve um talento especial na cozinha, relembra suas primeiras experiências culinárias e fala sobre a importância de infundir saúde e alegria nas comidas que prepara. “Quando estou cozinhando, me concentro em transmitir força e felicidade”, diz ela.

Espaço de Resistência

Reconhecido como um dos treze quilombos urbanos do estado, o Quilombo Ferreira Diniz se destaca como um espaço de afirmação cultural frente à especulação imobiliária que invade a região. A psicóloga Brenda Pimentel Torres, após visitar o local, salientou o significado do tombamento como um símbolo de resistência e de reconhecimento histórico. “Estar em um lugar que combate o racismo e o apagamento da história é essencial”, afirma.

O Iphan classificou o espaço como uma “ilha verde” em meio ao crescimento urbano sem controle, e o tombamento serve para garantir proteção contra demolições e outras interferências que possam afetar seu valor cultural. Patrícia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio, esclareceu que essa medida é de natureza jurídica, simbólica, territorial e reparatória, reafirmando a relevância da história negra na cidade.

Preservação Cultural e Futuro

O quintal do quilombo exerce um papel crucial na vida comunitária, sendo um local de refeições, festas e celebrações. Contudo, o casarão principal, que possui um estilo neoclássico e abriga as moradias das famílias, necessita de reformas para melhorar as condições de vida dos moradores. Érida Ferreira, presidenta da Associação da Comunidade, expressou a esperança de que o tombamento facilite a regularização da posse pelo Incra, possibilitando o acesso a programas de reforma e proteção contra desapropriações.

O Incra está atualmente envolvido na análise da situação do quilombo, e a Universidade Federal Fluminense realizará um levantamento histórico das famílias que ali residem. A professora Ana Carmen ressalta que viver em uma comunidade unida traz lições importantes sobre coletividade e reforça o valor da contribuição da população negra na formação da sociedade brasileira.

A luta do Quilombo Ferreira Diniz não é apenas um marco em sua história local, mas também ressoa além de suas fronteiras, simbolizando a força e a cultura que precisam ser protegidas e celebradas.