Pular para o conteúdo
Comece o dia bem informado! 14 de agosto de 2026

Polipílula para prevenção do AVC busca 8,5 mil voluntários

No Brasil, está em andamento um ambicioso projeto de pesquisa que visa recrutar 8,5 mil voluntários para a realização de testes em uma polipílula voltada para a prevenção de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e outras enfermidades cardiovasculares. O processo de recrutamento, iniciado no final de 2025, incluirá acompanhamento da saúde dos participantes por um período entre três e quatro anos.

A polipílula combina três medicamentos: rosuvastatina de 10 mg, que ajuda a controlar o colesterol, com valsartana de 80 mg e anlodipina de 5 mg, associados ao tratamento da hipertensão. Essa união permitirá que os voluntários tomem os medicamentos simultaneamente, facilitando a adesão ao tratamento.

A fase inicial da pesquisa foi considerada um êxito, realizada entre 2020 e 2023 na cidade de Porto Alegre, com a participação de 370 indivíduos. O estudo é conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, em cooperação com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), contando também com a parceria de unidades de atenção primária e secretarias de saúde.

Sheila Martins, neurologista e líder do estudo, ressaltou a relevância da participação da população para a validação dos resultados. Ela afirmou: “Quanto maior for o número de participantes, mais robustas serão as evidências geradas e maior será o potencial para guiar futuras políticas de saúde preventiva.”

Público-alvo e metodologia

Os voluntários devem ter entre 50 e 75 anos, sem histórico de AVC ou infarto, e não podem estar utilizando medicamentos para controle de colesterol, hipertensão ou diabetes. A participação no estudo é gratuita e inclui acompanhamento médico regular por uma equipe especializada.

Atualmente, a pesquisa está recrutando em 14 centros de AVC espalhados por vários estados, incluindo São Paulo e Rio Grande do Sul, e outros centros do país estão sendo incorporados ao projeto.

Os participantes serão divididos em dois grupos, onde um deles receberá a polipílula e o outro, um placebo. Durante três anos, o estudo monitorará as consequências desta intervenção no risco de AVC, demência e perda de memória, além de investigar possíveis reduções no risco de infarto, insuficiência cardíaca e mortalidade causada por doenças circulatórias.

Para auxiliar os voluntários, foi criado um aplicativo chamado Riscômetro. Essa ferramenta permitirá que os usuários calculem e monitorem seus riscos de AVC, infarto e outras condições circulatórias, além de incentivar mudanças de estilo de vida benéficas, como aumento da atividade física e cessação do tabagismo.

Impacto do AVC e prevenção

O AVC representa a principal causa de morte no Brasil, com 89.490 óbitos registrados no último ano, conforme dados do Portal da Transparência do Registro Civil. A Organização Mundial do AVC projeta um aumento de 50% nas fatalidades em decorrência dessa doença nas próximas décadas, podendo atingir 9,7 milhões até 2050. Contudo, 90% dos casos de AVC são preventáveis com o manejo adequado dos fatores de risco, com a hipertensão sendo o mais crítico.

De acordo com Sheila Martins, geralmente recomenda-se mudanças no estilo de vida para indivíduos com pressão levemente elevada, enquanto medicamentos são prescritos apenas a partir de valores de 140 por 90 mmHg. O estudo pretende avaliar se pessoas com pressão arterial dentro de níveis mais baixos, entre 115 e 139 mmHg, poderiam se beneficiar do uso da polipílula como medida preventiva.

Perspectivas futuras

Conforme a coordenadora do estudo, os achados da pesquisa poderão transformar a abordagem das políticas públicas de saúde em relação ao AVC. A equipe acredita que, em breve, a polipílula poderá ser integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), oferecendo uma alternativa mais prática e eficiente para o tratamento de muitos brasileiros, dada a conveniência da combinação dos três medicamentos em um único comprimido.

A elaboração da polipílula contou com a colaboração de um comitê nacional e de especialistas internacionais em AVC e hipertensão, garantindo que a formulação seja de alta eficácia e segurança. Espera-se que os resultados da pesquisa influenciem não apenas o Brasil, mas também as diretrizes globais para a prevenção de doenças cardiovasculares.

Com informações da Agência Brasil (EBC), sob licença CC BY 3.0 BR. Texto editado.