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Apostas em bets aumentam entre jovens e geram risco de dependência

O crescimento das apostas online tem gerado preocupações expressivas sobre a dependência entre os jovens. Especialistas e relatos pessoais revelam uma situação alarmante. Por exemplo, Luiz Carlos*, membro do grupo de apoio Jogadores Anônimos, apontou que o número de adolescentes – inclusive aqueles com apenas 14 anos – buscando ajuda está aumentando.

Um caso ilustrativo é o de Gustavo Pereira, 24 anos, que começou a apostar aos 18 e enfrentou sérios problemas financeiros, acumulando perdas de até meio milhão de reais em seis anos. Ele descreve como o vício afetou sua percepção sobre o dinheiro: “O vício faz isso, te enche de ganância”, comenta. Hoje, em busca de recuperação, Gustavo vende café nas ruas de Lages (SC) e utiliza suas redes sociais para compartilhar sua trajetória.

Vulnerabilidades e Dados Preocupantes

A acessibilidade das plataformas de apostas, facilitada pelos celulares, expõe os jovens a esse tipo de jogo de maneira alarmante. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estima que uma em cada cinco pessoas inicie sua jornada nas apostas até os 11 anos, e 78% dos jovens começam a apostar antes dos 12 anos. Uma pesquisa recente realizada no Brasil entre estudantes do ensino médio demonstrou que 9,5% fizeram suas apostas pela primeira vez aos 11 anos, com aproximadamente metade dos alunos do 3º ano do ensino médio relatando experiência com apostas.

A psicóloga Mariana Kehl discute como a vulnerabilidade dos jovens aumenta essa problemática, enfatizando que o desenvolvimento cerebral dificulta o controle de impulsos, tornando-os mais suscetíveis aos apelos do jogo.

Experiência de Vida e Dependência

Luiz Carlos, que conseguiu superar sua dependência, reflete sobre como a tecnologia alterou esse cenário. “Hoje, você carrega um cassino no bolso”, destaca, ressaltando que agora é possível jogar a qualquer momento e em qualquer lugar, ao contrário do que acontecia décadas atrás. Diversas histórias compartilhadas por frequentadores do grupo Jogadores Anônimos evidenciam os impactos negativos das apostas. Rogério, por exemplo, exemplifica como sua vida financeira começou a desmoronar devido ao vício.

“As apostas comprometiam meu orçamento e dificultavam o pagamento das contas”, revela Rogério.

As estatísticas indicam que, em 2024, aproximadamente 24 milhões de brasileiros participaram de apostas, sendo que quase metade enfrentou problemas de endividamento como resultado. Tiago Braga, diretor do IBICT, adverte que apostar não deve ser entendido como um investimento, mas sim como um gasto que pode afetar seriamente o futuro financeiro das pessoas.

Consequências na Educação e Vida Social

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) revelou que 34% dos estudantes mencionaram precisar reduzir os gastos com apostas para se matricular em um curso de graduação. Entre os que já estão no ensino superior, 14% atrasaram mensalidades ou trancaram seus cursos devido a problemas financeiros relacionados às apostas.

O diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, salienta a importância de uma abordagem abrangente que considere tanto a educação quanto políticas públicas. O estudo também mostrou que 34% dos entrevistados pararam de investir em aprendizado, enquanto 33% abandonaram atividades físicas devido ao vício.

Proteção dos Jovens e Regulamentação

Com a implementação do ECA Digital em março de 2026, o governo federal busca restringir o acesso a apostas online para menores de 18 anos e introduz mecanismos de verificação de idade. O advogado Felipe Moreira esclarece que essa legislação tem como objetivo criar um ambiente mais seguro, com responsabilidades divididas entre plataformas, famílias e o Estado.

A advogada Luana Mendes destaca que o controle parental deve ser complementar a uma educação digital, a fim de proteger crianças e adolescentes de riscos potenciais. Já a psicóloga Mariana Kehl alerta para o perigo das influências de publicidades promovidas por influenciadores entre os jovens.

*Sobrenome omitido a pedido dos entrevistados.