O cinquentenário do atentado que teve como alvo a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e buscou silenciar as vozes da luta pela democracia durante o regime militar (1964-1985) será lembrado no dia 19 de agosto. A explosão que ocorreu no centro do Rio de Janeiro será destacada em uma edição especial do Boletim da ABI, que será lançada neste sábado.
A detonação aconteceu no sétimo andar do prédio na Rua Araújo Porto Alegre, causando danos significativos em banheiros e salas adjacentes, além de afetar o elevador e outros dois andares. Apesar da gravidade da situação, não houve registros de feridos.
Relevância histórica da nova publicação
A nova versão do Boletim é composta por documentos históricos e relatórios confidenciais que não apenas relembram o atentado, mas também enfatizam a importância da imprensa livre na resistência contra a censura e a repressão política em tempos autoritários.
A edição utilizada como fonte principal foi a de julho-agosto de 1976 do Boletim da ABI, que saiu logo após o atentado. Também foram incluídos documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), de setembro do mesmo ano, que expõem a vigilância rigorosa do regime militar sobre a associação. De acordo com a ABI, tais registros evidenciam a estrutura do controle político vigente na época.
“Esse registro ajuda a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”, afirma a associação.
Com a supervisão de Geraldo Cantarino, a edição especial traz imagens do local da explosão e dos danos ao edifício, um ícone da arquitetura moderna brasileira inaugurado em 1938 e que ainda abriga a ABI.
Contexto e autoria do atentado
O ataque foi reivindicado pela Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), um grupo paramilitar de extrema-direita. Em um panfleto deixado na cena do crime, a organização afirmou que a ABI estava “totalmente dominada pelos comunistas” e que o atentado seria uma primeira advertência.
“A ABI, ao defender a liberdade de imprensa e os direitos humanos, tornou-se alvo da intolerância de grupos radicais que resistiam aos movimentos de abertura política do regime”, explica Octávio Costa, o atual presidente da ABI.
Na liderança da ABI na época do atentado estava o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, além de outros nomes notáveis como Alberto Dines e Maurício Azêdo.
Panorama de violência política
O ataque à ABI inseriu-se em um contexto de violência política que buscava reprimir a expansão das liberdades democráticas. No mesmo dia, acredita-se que um outro artefato da AAB tenha sido colocado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas não detonou.
Durante esse período, o Brasil enfrentou uma série de ataques semelhantes, com o regime militar, sob a presidência de Ernesto Geisel desde 1974, sendo alvo de críticas por sua abertura, o que era percebido como uma ameaça por grupos extremistas. No dia seguinte ao atentado na ABI, dois coquetéis molotov foram lançados na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, ocasionando um princípio de incêndio.
Adicionalmente, em 4 de setembro de 1976, uma bomba caseira explodiu no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em São Paulo. Dados do Jornal do Brasil revelam que, entre agosto e novembro de 1976, foram registrados nove atentados no Rio de Janeiro, com oito deles reivindicados pela AAB. Porém, as ações repressivas não conseguiram identificar os responsáveis pelos ataques.
Cerimônia de lembrança
Em função dessa significativa data, a ABI organizou um ato para o dia 19, às 17h, no local do atentado. Durante a cerimônia, uma placa comemorativa será instalada, expressando repúdio ao terrorismo e celebrando a democracia.
“A Casa do Jornalista se manterá vigilante frente a quaisquer ameaças ao Estado Democrático de Direito”, conclui Octávio Costa.
Com informações da Agência Brasil (EBC), sob licença CC BY 3.0 BR. Texto editado.
